domingo, 8 de dezembro de 2013

Revista Veja - Entrevista Stanton Samenow

Edição 2346

Na edição de 6 de novembro de 2013 (edição 2346 - ano 46 - nº45), a Revista Veja veiculou uma entrevista com o psicólogo e professor Stanton Samenow. Segundo a matéria, ele passou os últimos 43 anos lidando com criminosos, a fim de entender qual o raciocínio por trás dos delitos, como cada um enxergava seus atos e lidava com as consequências. O psicólogo publicou dois livros, na década de 70, que tratam de como pensam assaltantes, assassinos e psicopatas. Esses livros são considerados marcos para a criminologia. Samenow, que já foi consultor do FBI, continua a prestar assessoria a tribunais americanos.

Seguem abaixo os trechos iniciais da entrevista que reforça a ideia de que as pessoas que cometem delitos têm uma natureza criminosa. Os posicionamentos do psicólogo se enquadram dentro do Positivismo Criminológico. O foco do discurso de Samenow está na transgressão, buscando entender a natureza degenerada do transgressor. Seu objetivo é entender como os criminosos pensam e tomam decisões, para, como psicólogos, ficarmos mais bem posicionados para decidir o que fazer com eles. Samenow desconsidera a ideia de que o sujeito é um efeito de uma construção sócio-histórica.


COMO PENSAM OS CRIMINOSOS
Em quatro décadas entrevistando bandidos, o psicólogo concluiu que a decisão de cometer crimes pouco tem a ver com a pobreza e as condições de vida em que eles se encontram

Veja - O senhor diz que o comportamento criminosos é uma escolha. Por quê?
Samenow - Não é uma escolha apenas, é uma série de escolhas. Para quem opta pelo crime como caminho de vida, essas escolhas começam a ser feitas bem cedo, quase sempre. Por exemplo: as pessoas mentem, adultos e crianças. Mas os futuros criminosos não mentem apenas para escapar de situações embaraçosas ou exagerar seus feitos. Mentem porque obtém uma sensação de poder com isso. Mentir acaba se tornando uma escolha, e parte do seu comportamento. É assim em vários outros aspectos. Mais um exemplo: crianças pequenas pegam os brinquedos umas das outras, batem-se e beliscam-se, mas aprendem, normalmente até os 5 anos de idade, que machucar os outros é errado. Número 1, porque não querem ser machucadas também. Número 2, porque serão punidas se forem pegas fazendo o que sabem ser errado. E número 3, e o mais importante, porque desenvolvem uma sensibilidade em relação ao sofrimento das outras pessoas. Já o futuro criminoso sente prazer em machucar os outros, e não só fisicamente. Coisas que qualquer um pode fazer, ainda mais quando se é novo e não se sabe distinguir o certo do errado, os criminosos continuam a fazer durante toda a vida. Eles simplesmente não incorporam o que se tenta ensinar-lhes. Para eles, "ser alguém" é ser o centro das atenções. É a vida como estrada de mão única - e o único sentido possível é o deles. Todos gostamos que as coisas sejam como queremos, mas aprendemos que não temos controle absoluto para além de nossas próprias ações.É um modo muito especial de pensar, que se desenvolve ao longo do tempo.

Sua descrição de um criminoso aproxima-se de um psicopata. Qual a diferença entre eles?
Não é propriamente uma diferença. Existe uma escala, como no caso da ansiedade e da depressão. Os que são chamados de "psicopatas" seriam ocupantes do último degrau dessa escala. Mas não acho que o rótulo seja importante, são todos criminosos. O que é relevante é a presença de um padrão de pensamento leva a um comportamento criminoso.

Persiste uma crença de que o crime é reflexo da ausência de oportunidades, um produto do meio. Qual sua opinião sobre isso?
Muitos criminologistas e sociólogos discordam, mas ao longo dessas quatro décadas de entrevistas com criminosos cheguei à conclusão de que o ambiente tem uma influência relativamente pequena sobre o crime. em lugares muito pobres, com a presença de gangues e alto índice de criminalidade, há mais tentações e pressões, sem dúvida. Se armas e drogas estão ao alcance da mão, cometer delitos é mais fácil. Nos lugares em que a presença do Estado e da polícia é quase inexistente, é claro que a sensação de que se pode cometer um crime sem ser punido também é mais forte. Mas não podemos dizer que a maioria dos pobres se torna criminosa, isso não é verdade. O que podemos dizer é que todo criminosos - não importa se rico ou pobre, negro ou branco, educado ou analfabeto - tem uma forma semelhante de pensar. A questão é como as pessoas lidam com o que a vida lhes oferece. Na maioria esmagadora dos casos, uma pessoa que vem de uma vizinhança pobre, tem uma família desestruturada e poucas oportunidades não envereda pelo caminho do crime. Ela tem irmãos, irmãs, vizinhos que vivem na mesma condição e não seguem esse rumo. Há um caso que eu sempre cito. O pai e os dois irmãos de um rapaz estavam na prisão. A tentação para o crime se encontrava na porta de casa. Perguntei: por que você não seguiu esse caminho? Ele respondeu que não estava interessado - que olhou ao redor e viu como seus parentes acabaram, como estavam as pessoas a que eles haviam prejudicado, e decidiu que queria ser diferente.

A entrevista continua.

Um comentário:

  1. Criminosos por necessidade ou por escolha?

    Será que o crime é a única escolha que alguns têm para sobreviver? “Eu encarava o crime como uma reação quase que normal, ou até desculpável, à esmagadora pobreza, à instabilidade e ao desespero que permeava a vida [dos criminosos]”, reconhece Samenow. Mas depois de fazer muita pesquisa ele mudou seu ponto de vista. “Os criminosos decidem cometer crimes”, ele concluiu. “O crime . . . é ‘causado’ pelo modo de pensar [da pessoa], e não pelo ambiente.” Ele acrescenta: “O comportamento é, em grande parte, produto da reflexão. Tudo o que fazemos é precedido, acompanhado e seguido pela reflexão.” Assim, ele chegou à conclusão de que os criminosos, em vez de serem vítimas, “faziam vítimas e haviam escolhido livremente seu modo de vida”.*

    A palavra-chave é ‘escolha’. De fato, uma manchete recente em um jornal britânico dizia: “O crime é a carreira que rapazes da cidade escolhem porque desejam melhorar de vida.” As pessoas têm livre-arbítrio e podem escolher que caminho querem seguir, mesmo em circunstâncias difíceis. Deve-se admitir que milhões lutam todo dia contra a injustiça social e a pobreza, ou talvez pertençam a famílias problemáticas; mas nem por isso se tornam delinquentes. Samenow diz: “Os criminosos são a causa do crime — e não bairros ruins, pais incapazes . . . ou o desemprego. O crime é produto da mente humana e não o resultado das condições sociais.”

    http://wol.jw.org/pt/wol/d/r5/lp-t/102008042

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