terça-feira, 19 de setembro de 2017

Software experimental que 'identifica rostos gays'

'Ciência lixo'?      

A polêmica causada por software experimental
 
que 'identifica rostos gays'

Grupos LGBT criticaram duramente experimento de prestigiosa universidade
dos EUA, que criou algoritmo que acertou reconhecimento de homossexuais
 
e heterossexuais em fotos em 81% das vezes.

Por BBC
13/09/2017 09h35  Atualizado 13/09/2017 09h35






O estudo criou modelos de rostos que teriam probabilidade maior e menor de pertencer a homossexuais 
(Foto: Universidade de Stanford)


Um experimento com um software de reconhecimento facial 
que diz ser capaz de diferenciar pessoas homossexuais e heterossexuais
 
causou polêmica após desencadear duras críticas de grupos de direitos LGBT.
O estudo, da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos,
afirma que seu software reconhece características faciais relacionadas 
à orientação sexual que não são percebidas por observadores humanos.
O trabalho foi acusado de ser "perigoso" e uma forma de "ciência lixo".
Mas os cientistas envolvidos, que buscam, a exemplo de outros estudos recentes, 
ligar traços ou feições a características de personalidade, disseram que estas
 
reações foram "impulsivas".
Detalhes do projeto devem ser publicados em breve 
no Journal of Personality and Social Psychology.
Maxilas estreitas
Para o estudo, os pesquisadores treinaram um algoritmo usando fotos 
de mais de 14 mil americanos brancos, tiradas de um site de relacionamentos.
Os cientistas usaram de uma a cinco fotos de cada pessoa e levaram em conta 
a sexualidade declara por elas no site.
Os pesquisadores disseram que o software desenvolvido foi capaz de 
distinguir homossexuais e heterossexuais.
Quando o algoritmo foi apresentado a duas fotos -
 uma definitivamente de um homossexual e outra de um heterossexual -,
 
ele foi capaz de acertar em 81% das vezes.
Com as mulheres, o número foi de 71%.
"Os rostos homossexuais tenderam a ter menos marcas de gênero", 
disseram os pesquisadores.


"Os  homens  gays  tinham  maxilas  mais  estreitas e narizes  maiores,  enquanto  
as  lésbicas  tinham  mandíbulas   maiores".
Mas o software também falhou em outras situações, como em um teste 
com fotos de 70 homens gays e de 930 homens heterossexuais.
Quando solicitado a apontar cem homens com "maior probabilidade de ser gay", 
a ferramenta errou em 23 deles.
Em seu resumo do estudo, a revista britânica The Economist - 
que foi o primeiro veículo de imprensa a revelar a pesquisa - apontou para várias 
"limitações" do experimento, incluindo uma concentração em fotos de americanos
 brancos e o uso de imagens de sites de relacionamento, que "provavelmente 
seriam particularmente reveladores da orientação sexual" .

'Descobertas imprudentes'
Na sexta-feira, dois grupos LGBT com sede nos EUA emitiram um comunicado 
de imprensa conjunto que criticava duramente o estudo.
"Esta pesquisa não é ciência ou novidade, mas é uma descrição 
de padrões de beleza em sites de namoro que ignora grandes
 segmentos da comunidade LGBTQ  (lésbicas, gays, bissexuais,
 
transgêneros e queer), incluindo pessoas de cor, pessoas transgêneras,
 indivíduos mais velhos e outras pessoas LGBTQ que não querem
 
publicar fotos em sites de namoro ", disse Jim Halloran,
 
diretor digital da Glaad, uma organização que monitora a mídia em
 
assuntos relacionados ao público LGBT.
"Essas  descobertas  imprudentes  poderiam servir  como  uma  arma  para  prejudicar  
tanto os heterossexuais cujas sexualidades poderiam ser  definidas erroneamente,
 como  também  as pessoas  gays  e  lésbicas que estão em situações em que isto
 
é perigoso."
A organização Human Rights Campaign (HRC) acrescentou que advertiu 
a universidade sobre suas preocupações há alguns meses.
"Stanford deve distanciar-se de tal ciência lixo, em vez de emprestar seu nome 
e credibilidade à pesquisa que é perigosamente falha e deixa o mundo - e neste caso,
 as vidas de milhões de pessoas - pior e menos seguro do que antes", disse o diretor 
de pesquisa da entidade, Ashland Johnson.
Os dois pesquisadores envolvidos - os professores Michael Kosinski e Yilun Wang -
 responderam dizendo que seus críticos estão realizando um "julgamento prematuro".
"Nossas descobertas podem estar erradas ... no entanto, os resultados científicos 
só podem ser desconsiderados por dados e replicações científicas, não por advogados 
bem-intencionados e funcionários de comunicação que não possuem formação científica", escreveram.
"No entanto, se nossos resultados estiverem corretos, a refutação impulsiva pela
 Glaad e HRC dos resultados científicos coloca em risco as pessoas que suas 
organizações se esforçam para defender".
'Trate com cautela'
Pesquisas anteriores que tentaram estabelecer uma relação entre traços faciais a traços
 de personalidade empacaram quando estudos complementares não conseguiram replicar
 seus resultados. Isso ocorreu, por exemplo, em um estudo que afirmava que um determinado 
formato de rosto podia ser vinculado a agressividade.


Um especialista independente disse à BBC preocupar-se com a afirmação de que o software
 desenvolvido no estudo de Stanford buscaria traços "sutis" moldados por hormônios 
durante a vida uterina.
"Essas diferenças 'sutis' podem ser uma consequência de formas sistematicamente 
diferentes pelas quais pessoas gays e heterossexuais optam retratar-se, em vez de diferenças
 na própria aparência facial", disse o professor Benedict Jones, que administra 
o Laboratório de Pesquisa de Rostos da Universidade de Glasgow, na Escócia.
Jones apontou também para importância da divulgação de detalhes técnicos do algoritmo, 
que poderia dar material para críticas informadas sobre o experimento.
"Novas descobertas precisam ser tratadas com cautela até que a comunidade científica em geral -
e o público - tenha tido a oportunidade de avaliar e digerir seus pontos fortes e fracos", diz o professor.
Posições políticas
Enquanto isso, um dos criadores da ferramenta que relaciona o formato do rosto à sexualidade,
 Michael Kosinski, vem defendendo os potenciais do reconhecimento facial no diagnóstico
 e previsão de personalidades.
Em entrevista publicada no jornal britânico "The Guardian" na terça-feira, o pesquisador 
afirmou estar estudando as ligações entre características faciais e posição política, 
com resultados preliminares indicando que a inteligência artificial é eficaz 
na descoberta da ideologia de uma pessoa com base no formato de seu rosto.
Segundo Kosinski, isto poderia ser possível por que as visões políticas são razoavelmente
hereditárias, resultando em diferenças faciais detectáveis.
O professor defendeu ainda que, além da posição política, a inteligência artificial poderia 
detectar desde predisposição a comportamentos perigosos à uma inteligência fora do comum,
 entre outras características.
"O rosto é uma representação observável de uma ampla gama de fatores, como sua história 
de vida, seus fatores de desenvolvimento ou se você está saudável", disse Kosinski ao Guardian.


Fonte G1: https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/ciencia-lixo-a-polemica-causada-por-software-experimental-que-identifica-rostos-gays.ghtml

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Manifesto "O MP PRENDE E O ESTADO MATA"

Manifesto "O MP PRENDE E O ESTADO MATA"

Nós, cidadãos, preocupados com os nossos direitos humanos e constitucionais, e com o direito à vida de todas as pessoas, queremos alertar a sociedade sobre os perigos da expansão do discurso punitivista, que demanda mais “segurança” e o recrudescimento penal, baseado na disseminação do medo social. A defesa da Segurança Pública como direito fundamental tem servido como justificativa para a exacerbação do controle social exercido contra negros e pobres, promovendo o crescente aprisionamento e a militarização das vidas em favelas e periferias.
Assistimos atônitos à tentativa de imposição de um projeto de poder autoritário, com o protagonismo de uma instituição social que constitucionalmente deveria defender a democracia, garantir os direitos coletivos e difusos, bem como fiscalizar a ação policial. Testemunhamos o fortalecimento da aliança do Ministério Público com forças políticas reacionárias, que buscam a supressão de direitos da classe trabalhadora, a criminalização da pobreza e prevalência dos interesses de grupos econômicos e políticos que se beneficiam do Sistema Penal como instrumento de manutenção da dominação e da exclusão.
Num país que tem 622 mil presos em condições desumanas, sendo mais de 40 mil somente no Rio de Janeiro, e 41% deles provisórios, não falta punição. Faltam direitos constitucionais. Sobram esforços do Estado e de seus agentes armados para marginalizar, oprimir e encarcerar a população negra do Rio de Janeiro. Avolumam-se os corpos nas favelas, com 3 mortos por dia pelas polícias do Rio, totalizando 642 civis assassinados entre janeiro e julho de 2017. Exacerbam-se operações policiais violentas, que deixam milhares de crianças e jovens sem aulas todos os dias e impedem comunidades de saírem para trabalhar, disseminando o terror nas vielas e casas. Do alto do “Águia da Morte” da Core, o Estado extermina os direitos civis e tortura física e psicologicamente centenas de milhares de cidadãos, cujos corpos tremulam ao escutar os sobrevôos rasantes do “caveirão” voador. Vidas matáveis, vivendo em constante “Estado de Exceção”.
Com a participação da mídia, fomenta-se a falsa narrativa da guerra, com o intuito de se justificar o uso violento da força pelas polícias e fortalecer a indústria da segurança pública, um mercado que se torna cada vez mais lucrativo, a partir da difusão do medo social, que gera demanda para a oferta de proteção ao patrimônio privado. Lembramos que, entre 1990 e 2015, as empresas privadas de segurança registraram a aquisição de 660 mil revólveres e pistolas e hoje, são menos de 300 mil armas. Desse modo, não parece haver maiores preocupações em fiscalizar tais empresas e apurar o problema. Inúmeras pesquisas já constataram que o combate ao varejo das drogas é letal e ineficaz, pois não atinge nem os grandes produtores (que estão nos condomínios de luxo e fazendas e voam de helicóptero), nem os senhores das armas, gerando lucros na economia das mercadorias políticas, dos arregos e acordos estabelecidos por dentro das instituições de segurança estatais.
O discurso maniqueísta do bem contra o mal cria inimigos a serem eliminados pelas forças de segurança: o traficante, o “elemento suspeito”, o adolescente infrator, que possuem em comum a cor da pele e o fato de residirem em favelas. A eles atribui-se uma malignidade nata, como se o crime estivesse cristalizado de forma permanente nesses indivíduos. Diante da sede por justiça, clama-se por mais violência, por encarceramento e pelo justiçamento com as próprias mãos. O fortalecimento do sentimento de impunidade, com apoio e propagação da mídia, outorga aos policiais o direito a matar, alegando-se sempre a legítima defesa em “autos de resistência”. Velórios de policiais servem como palanques políticos, enquanto se omite a informação de que a grande maioria deles morre fora de serviço e que a proporção é de 1 policial morto em serviço para cada 30 civis assassinados por eles.
Promovem-se chacinas com o aval de coronéis, secretários, chefes de polícia, governador, promotores, juízes e a sociedade. O Ministério Público e a Justiça têm as mãos sujas com o sangue desse genocídio ao arquivarem os casos de violações de direitos e homicídios praticados por policiais, ao promoverem a seletividade penal, o racismo institucional e o encarceramento em massa. Tratam desigualmente os desiguais, baseados em uma hierarquia de credibilidades em que a versão policial apresentada em procedimentos inquisitoriais é a única a ser considerada pelas instituições.
Por tudo isso, entendemos que a realização de um evento de caráter legalista e fascista pelo Ministério Público endossa um projeto político maior, decorrente da aliança de quem deveria promover justiça com a direita sedenta por justiçamento a qualquer custo. As noções equivocadas como “bandidolatria” e “democídio” fomentam a ideia de que o recrudescimento das práticas de justiça criminal e o aprimoramento do aparato punitivo são a solução para os problemas da segurança pública.
O Estado Democrático de Direito, previsto na Constituição, deve ter como fundamentos a cidadania e a dignidade da pessoa humana. Lembremos que os objetivos fundamentais da República incluem a construção de uma “sociedade livre, justa e solidária” e a promoção do “bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”. Não vamos assistir parados ao massacre de nossos direitos constitucionais. Ocuparemos ruas, instituições públicas, escolas, universidades, presídios, gabinetes e redes sociais contra essa onda punitivista, que quer privatizar a segurança pública e suprimir direitos.
A Segurança Pública e o encarceramento em massa matam.
O Ministério Público enterra.
E a Justiça chancela
Rio de Janeiro, 11 de setembro de 2017.
Frente Estadual pelo Desencarceramento – RJ

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

A voz das vítimas da guerra às drogas

por Djamila Ribeiro — publicado 11/09/2017 
A plataforma “Movimentos” reúne jovens das favelas cariocas, principais atingidos pela política de entorpecentes

https://www.cartacapital.com.br/revista/969/a-voz-das-vitimas-da-guerra-as-drogas

domingo, 3 de setembro de 2017

Chimamanda Adichie: o perigo de uma histórica única

"Eu gostaria de finalizar com esse pensamento: quando nós rejeitamos uma única história, quando percebemos que nunca há apenas uma história sobre nenhum lugar, nós reconquistamos um tipo de paraíso."

Vídeo disponível pelo link: brhttps://www.ted.com/talks/chimamanda_adichie_the_danger_of_a_single_story/transcript?language=pt-br