sábado, 31 de maio de 2014

video


Para entender um pouco mais sobre a relação manicomial e a política de higienização através de internação compulsória dos usuários de crack ainda aceita no país! 

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Memória da Loucura


De acordo com os dados do Ministério da Saúde através do programa Memória da Loucura, a partir da promulgação da Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001, que dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental, o Brasil entrou para o grupo de países com uma legislação moderna e coerente com as diretrizes da Organização Mundial da Saúde e seu Escritório Regional para as Américas, a OPAS.
A Lei indica uma direção para a assistência psiquiátrica e estabelece uma gama de direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais; regulamenta as internações involuntárias, colocando-as sob a supervisão do Ministério Público, órgão do Estado guardião dos direitos indisponíveis de todos os cidadãos brasileiros.
A Reforma Psiquiátrica é entendida como processo social complexo, que envolve a mudança na assistência de acordo com os novos pressupostos técnicos e éticos, a incorporação cultural desses valores e a convalidação jurídico-legal desta nova ordem. 

Para entender mais sobre o tema, os links abaixo esclarecem e pormenorizam a história da Psiquiatria no Brasil e as mudanças que ocorreram nos últimos anos para os sujeitos acometidos de doença mental. Vale muito a pena entender um pouco mais sobre um assunto que atravessa a prática de uma psicologia mais social e participativa com os direitos dessa importante parte da sociedade brasileira. 

Mapa da violência 2014: Número de assassinatos cresceu 7,9% no país entre 2011 e 2012

Segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde, que tem como fonte os atestados de óbito emitidos em todo o país. O Brasil registrou em 2012 o maior número absoluto de assassinatos e a taxa mais alta de homicídios desde 1980. Nada menos do que 56.337 pessoas foram mortas naquele ano, num acréscimo de 7,9% frente a 2011. A taxa de homicídios, que leva em conta o crescimento da população, também aumentou 7%, totalizando 29 vítimas fatais para cada 100 mil habitantes. É o que revela a mais nova versão do Mapa da Violência, que será lançada nas próximas semanas com dados que vão até 2012.
O Rio de Janeiro, Espirito Santo e mais três outros estados da Federação conseguiram reduzir suas taxas de homicídios de 2011 para 2012. 


Mapa da Violência 2014 - Taxa de homicídios no Brasil em 2012

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Como se fabricam crianças loucas

Os manicômios não são passado, são presente. Uma pesquisa realizada no hospital psiquiátrico Pinel, em São Paulo, mostra que, mesmo depois das novas diretrizes da política de saúde mental no Brasil, crianças e adolescentes continuaram a ser trancados por longos períodos, muitas vezes sem diagnóstico que justificasse a internação, a mando da Justiça. Conheça a história de Raquel: 1807 dias de confinamento. E de José: 1271 dias de segregação. Ambos tiveram sua loucura fabricada na primeira década deste século 
 
 

"O Avanço da Maconha" - A estreita relação da legalização da droga no Uruguai com o Brasil.

O Uruguai foi o primeiro país do mundo a legalizar o cultivo e o comércio da maconha. A lei só entra em vigor no segundo semestre de 2014, mas já causou muita polêmica e discussão no país, visto o grande número de pessoas contrárias a decisão do governo local para diminuir a violência e o tráfico no país. A reportagem exibida no Jornal da Band em 10/04/14 faz parte de uma série de seis reportagens, conduzidas pelo repórter Fábio Pannuzio. Esse episódio da série traz uma discussão interessante a respeito do nosso país, moradores e comerciantes da cidade gaúcha de Santana do Livramento que faz divisa com o munícipio de Rivera no Uruguai, podem ser enquadrados por Tráfico Internacional de Drogas. A reportagem traz o exemplo de uma farmácia que fica no lado Uruguaio que pode livremente comercializar a droga, partir de Julho e o dono da farmácia no lado brasileiro pode ser preso caso efetue a vendada maconha.  Outro aspecto observado pelo vice prefeito da cidade brasileira, é o medo de que segundo ele a cidade se "infeste de maconha" devido ao fácil acesso entre as cidades. Como resolver o "problema" da cidade de Santana do Livramento? A legalização do comércio e o uso da droga  seriam soluções viáveis  para resolver esse caso? Já não está na hora do Brasil discutir de forma mais direta a legalização da maconha?







OBS: A  série de reportagens "O Avanço da Maconha" é imperdível para qualquer um interessado na questão das drogas e dos direitos humanos, principalmente pela imparcialidade e profundidade de como tratou o assunto em pleno horário nobre na televisão aberta.

domingo, 25 de maio de 2014

Pessoal,
Amanhã as 14h acontecerá na Diuc (Divisão de Integração Universidade Comunidade), Ilha do Fundão (ao lado da prefeitura universitária), uma reunião entre diferentes instituições que desenvolvem trabalhos na Maré, associações de moradores de lá e as Forças de Pacificação que estão atuando na região (com presença do Comandante Geral do Exército, general Escoto). Essa reunião é parte de um projeto que se encontra em construção neste momento em que a UFRJ, via NIAC (Núcleo Interdisciplinar de Ações para Cidadania, que reúne as áreas Psicologia, Direito e Serviço Social), intenta potencializar as forças que já estão atuando na Maré em nome da defesa e promoção de direitos.
Acreditamos que essa discussão é muito importante para nossa formação e que a temática que ali estará sendo tratada é parte do tema da aula de amanhã, Ditaduras de Ontem e Hoje. Por esse motivo a aula de amanhã será transferida para o Fundão. Participar desse encontro será nossa aula. 
Pedimos que, por favor, avisem aos demais colegas da turma.
Abs,
Pedro Bicalho e Roberta Brasilino.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Entrevista com o autor de "O fim da guerra"

Entrevista com Denis Burgierman, o autor do livro "O fim da guerra". No livro, ele conta sobre suas viagens para diversos países onde a maconha não é criminalizada, procurando saber como cada um deles lida com o problema das drogas, especificamente da maconha, objetivando apresentar um modelo político que possa substituir o modelo brasileiro, que se mostra repressor e ineficaz. O que mais me chamou atenção no autor foram suas afirmações de que o surgimento da indústria do tráfico é, em parte, causado pelos políticos, pois estes utilizam como forma de plataforma eleitoral as drogas exageradamente difamadas e, além disso, Burgierman demonstra que as drogas não estão tão disseminadas nem causam a quantidade de problemas quanto se imagina, ao relatar que existem 210 milhões de usuários de drogas ilícitas no mundo, porém, 165 milhões seriam usuários de maconha e, com a sua regulamentação, sobrariam apenas os outros 45 milhões de usuários de drogas pesadas, dos quais 10 milhões são considerados usuários problemáticos. Burgierman mostra, segundo pesquisas político-econômicas, que haveria um grande impacto caso houvesse uma descriminalização da droga no Brasil e que isso traria bons resultados. Vale a pena assistir!



Cursos Online Grátis e com Certificado. Universidades Internacionais

Tráfico de Pessoas

https://www.coursera.org/course/humantrafficking

A migração Latino Americana


O Mal da América: Uso e o Controle das Drogas nos EUA


Presunção de Inocência? Entendendo as condenações injustas através da ciências sociais


Direito Criminal


Introdução às Ciências Forenses


Introdução ao Direito Penal Internacional


Introdução aos Direitos Humanos


Compreendendo a Violência

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Paz com voz


DEBATE: Direitos Humanos e UPP
 

Nesta quinta-feira (22), às 8h30, Marcelo Freixo vai estar na Mangueira para debater o tema Polícia e Comunidade. Junto a Freixo, estarão na mesa de debate a pesquisadora Sílvia Ramos, o ex-comandante da PM Ubirantan Ângelo e Felipe Chocoball.
 
O encontro será no auditório da Escola Técnica Adolpho Bloch, que fica na Av. Bartolomeu de Gusmão, 850 – São Cristóvão.

O debate é aberto ao público, então, é só chegar! Este diálogo é muito importante e deve ser incentivado.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Um tanto quanto curioso!

Henry Hargreaves Fotografa as Últimas Refeições do Corredor da Morte

Encontro de Psicologia Jurídica - Faculdade Maria Thereza



Encontro de Psicologia Jurídica Promovido em Colaboração pelas Faculdades Integradas Maria Thereza e a ETIC – Equipe Interdisciplinar Civil /Psicologia, 
Dia 21 de Maio de 2014, de 8h às 22h.


Inscrições poderão ser feitas no local.

Evento no facebook: https://www.facebook.com/events/1435214780065565/?ref=br_tf

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Distribuições das facções criminosas pelo RJ

Encontrei estes blog que mostra a distribuição das facções pelas favelas aqui do Rio. Achei interessante colocar aqui para que a turma tivesse contato com estes dados. O blog data de 2009, por isso as informações podem estar bastantes desatualizadas, apesar disso acredito que seja válido dar uma olhada.

domingo, 11 de maio de 2014

Prefeitura do Rio retira moradores de rua para coibir delitos

Vitor Abdala - Repórter da Agência Brasil - Agência Brasil 18.02.2014 - 11h03 | Atualizado em 18.02.2014 - 11h38


http://www.ebc.com.br/cidadania/2014/02/prefeitura-do-rio-retira-moradores-de-rua-para-coibir-delitos

A prefeitura do Rio de Janeiro iniciou hoje (18) uma operação na zona sul e no centro da cidade, com o objetivo de coibir a “prática de pequenos delitos”. Nos bairros de Copacabana e Leme, na zona sul da cidade, os agentes da prefeitura e policiais militares tinham como foco principal o recolhimento de moradores de rua.
“A ideia é dar um ordenamento maior na orla e nessas regiões, atender à população de rua que precisar de ajuda e a polícia, obviamente, enfrentar os pequenos delitos. Há casos em que a fronteira é muito pequena, como um dependente químico que está na rua e pode estar cometendo um delito. Isso é um caso de segurança pública. Se ele não cometeu um delito, obviamente é um caso de assistência social. Mas o morador de rua só é recolhido, se ele quiser”, disse o secretário municipal de Governo, Rodrigo Bethlem.
No entanto, a Agência Brasil acompanhou a ação durante mais de uma hora, até as 10h de hoje, e verificou que alguns moradores foram encaminhados para a van da prefeitura, para serem levados à delegacia e depois ao abrigo, mesmo sem querer ajuda das autoridades.
Duas irmãs que dormiam na areia da Praia de Copacabana disseram que não gostariam de voltar ao abrigo de onde tinham saído ontem e onde disseram ter sido maltratadas. Os agentes da prefeitura insistiram em levá-las à van e quando fracassaram, disseram que precisavam levá-las à delegacia para verificar se não tinham cometido nenhum crime.
Ainda diante da negativa das irmãs, um policial militar interviu dizendo que elas não precisariam ir à delegacia, mas que teriam que sairem da praia, mesmo sendo um local público. Em uma praça no bairro do Leme, os agentes da prefeitura, acompanhados de guardas municipais e policiais militares, acordaram um casal que dormia no chão.
Os dois se recusaram a entrar na van e tiveram que ser conduzidos, pelo braço, pelos agentes. Um deles conseguiu escapar e os agentes o perseguiram pela orla. Questionado pela Agência Brasil  se os moradores de rua não estavam sendo coagidos ou sendo retirados à força pela prefeitura, o secretário alegou que muitos não tinham documentos e, por isso, precisavam levá-los à delegacia.
“Eles não têm documento, então a polícia nos orientou a encaminhá-los à delegacia. Eles podem ter cometido algum crime e serem foragidos”, disse o secretário à reportagem.
No mesmo momento em que o casal de moradores de rua foi acordado pelos agentes, um recolhedor de apostas do jogo do bicho permaneceu sentado em um banco da praça, sem ser importunado ou sequer abordado por policiais e guardas municipais. Ele apenas recolheu seu material e os guardou. Ninguém pediu para verificar seus documentos.
O jogo do bicho é proibido pelo artigo 58 da Lei de Contravenção Penal que prevê pena de quatro meses a um ano de prisão, além de multa. A Agência Brasil também questionou o secretário por que o contraventor não havia sido abordado pelos agentes. “Tinha jogo do bicho ali? Nem vi. Mas isso é caso de polícia. Nós não somos polícia”, disse Bethlem.
A reportagem questionou então, se o objetivo da operação não era coibir pequenos delitos e se não era justamente essa a razão de policiais militares participarem da operação. O secretário disse então que os policiais deveriam ter agido.
Segundo o secretário, a operação terá caráter permanente e será realizada dia e noite. São quatro equipes com profissionais como guardas municipais, policiais militares, assistentes sociais e agentes de ordem pública.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Quinhentos mil contra um



A onda de linchamentos pelo país é preocupante. Quem são os linchados? Quem são os linchadores? E quem são aqueles embora não participem diretamente aprovam os linchamentos? 



Código Penal:

Art. 286 - Incitar, publicamente, a prática de crime:
Pena - detenção, de 3 (três) a 6 (seis) meses, ou multa.

Art. 287 - Fazer, publicamente, apologia de fato criminoso ou de autor de crime:
Pena - detenção, de 3 (três) a 6 (seis) meses, ou multa.

Sobre a Fabiana:
https://www.facebook.com/oserainomundo/photos/a.130616363775284.1073741828.130614307108823/139138219589765/?type=1&theater

Sobre o Alailton:
http://negrobelchior.cartacapital.com.br/2014/04/11/jovem-negro-e-espancado-e-morto-por-populares-no-es/

Sobre o Marcelo:
http://correiodobrasil.com.br/noticias/brasil/justiceiros-matam-suspeito-inocente-dos-crimes-de-que-o-acusaram/688981/
 

Quinhentos mil contra um

Flávia Tavares - O Estado de S.Paulo em 17/02/2008
No fim de semana passado, três homens suspeitos de roubo foram linchados na periferia de Salvador. No sábado, Emílio Oliveira Silva e Michael Santa Izabel, acusados de saquear residências da vizinhança, foram linchados por mais de 30 pessoas. Emílio foi morto a pauladas. Domingo, a vítima foi um homem de identidade desconhecida. Ele também foi perseguido por mais de 30 moradores, que o acusavam de roubar uma TV. Morreu no local, a 200 metros de onde Emílio e Michael foram atacados. Na noite de segunda-feira, em Ribeirão Preto (SP), o estudante Caio Meneghetti Fleury Lombardi, que invadiu um posto de gasolina, atropelou o frentista Carlos Pereira Silva e tentou fugir, sofreu uma tentativa de linchamento. Por fim, na quinta-feira, um adolescente da Fundação Casa (ex-Febem) foi linchado até a morte por outros internos, em Franco da Rocha (SP).
Foram cinco casos noticiados em 6 dias. Não se trata de uma epidemia - em nosso contexto, é algo normal. José de Souza Martins, sociólogo e colaborador do Aliás, estuda linchamentos há quase 30 anos e documentou 2 mil casos. Ele faz uma estimativa surpreendente: no Brasil, possivelmente o país que mais lincha no mundo, há 3 ou 4 casos por semana. Geralmente, nas periferias das cidades, comSão Paulo, Salvador e Rio de Janeiro à frente.
A análise minuciosa de como se dão essas atrocidades é dolorosa, mas reveladora. Mais de 500 mil brasileiros e brasileiras, incluindo crianças, participaram de linchamentos nos últimos 50 anos - e quase ninguém foi punido. A seqüência de agressões vai do apedrejamento à mutilação. Não é uma questão de pura maldade: é a população agindo, equivocadamente, onde a Justiça não atua.
José de Souza Martins, de 69 anos, professor de sociologia da Faculdade de Filosofia da USP, está lançando dois livros - uma reedição ampliada de Sociabilidade do Homem Simples (Ed. Contexto) e o inédito A Aparição do Demônio na Fábrica (Ed. 34), ambos sobre a cultura operária. Na entrevista a seguir, ele discorre sobre o fenômeno do linchamento, tema que pretende, em breve, transformar em livro.
O Brasil é o país que mais lincha no mundo?
Possivelmente. Isso nos últimos 50 anos, período que minha pesquisa abrange. Não dá para ter certeza, porque linchamento é o tipo de crime inquantificável. Mesmo os americanos, quando tentaram numerar seus casos, tiveram fontes precárias. O linchamento é um crime altruísta, ou seja, um crime social com intenções sociais. O linchador age em nome da sociedade. É um homem de bem que sabe que está cometendo um delito e não quer visibilidade. Por outro lado, no Código Penal brasileiro não existe o crime de linchamento, somente o homicídio. Então, ele não aparece nas estatísticas. Os casos são diluídos. Estimo que aconteçam de 3 a 4 linchamentos no País por semana, na média. São Paulo é a cidade que mais lincha. Depois, vêm Salvador e Rio de Janeiro.
Que análise o senhor faz de um país habituado ao linchamento?
As sociedades lincham quando a estrutura do Estado é débil. Há momentos históricos em que isso acontece. Na França, depois da 2ª Guerra Mundial, quando não havia uma ordem política, havia a tonsura (a raspagem dos cabelos) de mulheres que tiveram relações sexuais com nazistas. Era uma forma de estigmatizar, para que ela ficasse marcada. O linchamento original, nos Estados Unidos, tinha essa característica.
O que configura um linchamento?
É uma forma de punição coletiva contra alguém que desenvolveu uma forma de comportamento anti-social. O anti-social varia de momento para momento e de grupo para grupo. Na França, ter traído a pátria era um motivo para linchar. No caso da Itália, aconteceu o mesmo. No Brasil, é o fato de não termos justiça, pelo menos na percepção das pessoas comuns. Nesse caso do atropelamento de um frentista em Ribeirão Preto, por exemplo, o delegado decidiu inicialmente por crime culposo (depois mudou para doloso). As pessoas que tentaram linchar o rapaz acreditavam que não haveria justiça, já que a pena seria mais leve por conta da atenuante.
Qual o perfil de quem é linchado?
Em geral, é linchado o pobre, mas há várias exceções. Há uma pequena porcentagem superior de negros em relação a brancos. Se um branco e um negro, separadamente, cometem o mesmo crime, a probabilidade de o negro ser linchado é maior.
Que criminoso é mais vulnerável?
O linchado pode ser desde o ladrão de galinha até o estuprador de criança. Sem dúvida, os maiores fatores são os casos de homicídio. Se a vítima do assassino é uma criança ou um jovem, ou se houve violência sexual, os linchamentos são freqüentes. Há muitas ocorrências por causa de roubo, especialmente se o ladrão é contumaz. Acredito que tenha sido o caso dos rapazes em Salvador. A própria população estabelece uma gradação da pena que vai impor ao linchado. Esta é a dimensão de racionalidade num ato irracional.
Como funciona essa gradação?
Um ladrão de galinha vai sair muito machucado - e pode acontecer de ele morrer. Mas o risco de ser queimado é mínimo. Com o estuprador é o contrário. Há também uma escala de durabilidade do ódio. Se um ladrão sobreviver durante 10 minutos de ataque, está salvo. Tem havido muitas tentativas de linchamento em acidentes de trânsito. Mas normalmente a polícia chega logo e evita o ataque.
Mulheres são linchadas?
É raríssimo. Nos 2 mil casos que estudei, há dois ou três em que uma mulher foi a vítima. Agora, há muitas mulheres linchadoras no Brasil. Mulheres e crianças.
Quem são os linchadores no Brasil?
Não há tanto uma divisão de ricos e pobres. De modo geral, os linchamentos são urbanos. Ocorrem em bairros de periferia. Porém, há linchamentos no interior do País, onde quem atua é a classe média. O caso mais emblemático é o de Matupá, no Mato Grosso. O linchamento foi filmado e passado pela televisão, no noticiário. Três sujeitos assaltaram o banco, a população conseguiu linchá-los e queimá-los vivos. Isso foi a classe média. E quando a classe média lincha, a crueldade tende a ser maior, porque ela tem prazer no sofrimento da vítima. O pobre é igualmente radical, porém é mais ritual na execução do linchamento.
Qual é a diferença entre um linchador cruel e um ritual?
No caso de Matupá, por exemplo, o prazer de quem linchou foi ver sofrer. Os três nem sequer cometeram um crime contra a comunidade. Já o pobre lincha quando a condição humana é violada. É uma punição sacrificial da vítima do linchamento pelas vítimas que ele causou. Isso não exclui a crueldade, mas ela é diferente. A idéia, nesses casos, é punir o corpo e a alma. Há um caso no sertão da Bahia, na região de Monte Santo. Um rapaz estupra e mata uma professora da região. Ele é preso num quartel. Naquela noite, uma pequena multidão chega de caminhão ao quartel, rende os soldados, tira o sujeito da cadeia e o leva para o local do crime. No caminho, vão mutilando o rapaz. Chegando lá, ele ainda está vivo, mas é uma pasta. O moço é queimado vivo, que é como a maior parte dos linchamentos acaba no Brasil. Ou seja, ele teve de derramar seu sangue onde foi derramado o sangue de sua vítima.Aparentemente, é um ritual de troca do sangue. Como ele derramou o de uma pessoa inocente, de uma mulher presumivelmente virgem - o que agrava a dimensão simbólica e a sacralidade do corpo violado -, ele foi queimado. Na crença popular, quem morre desfigurado por violência não encontra o caminho da eternidade. O cego, especialmente. Por isso, é comum que arranquem os olhos do linchado.
A característica ritual desses linchamentos é uma invenção brasileira?
Levantei muito material sobre os EUA, onde a cultura é protestante. Lá, o caráter ritual não aparecia. A execução de negros, por exemplo, era sumária, por enforcamento. Inclusive, depois se fotografava o linchado e produziam-se cartões-postais com essas imagens. Era um ato para mostrar quem mandava.
O linchamento já foi usado como pena instituída?
Existe uma tradição antiga de vários países, especialmente asiáticos e árabes, em que a punição para determinados crimes é o linchamento por apedrejamento. Mas reservamos o termo para o início da sociedade moderna, em que surge a figura da multidão "indiferençada". O típico linchamento é na rua. Se há um assalto e alguém grita, forma-se uma multidão que não tem identidade. Quem passa por ali ataca. Não há planejamento.
As pessoas têm consciência do que estão fazendo?
Muitas vezes, não. E há casos comprovados disso. Um rapaz negro foi linchado na periferia do Rio e, quando a polícia chegou, havia uma velhinha da vizinhança, tipo vovozinha, com uma colher tentando arrancar os olhos do rapaz. A polícia teve enorme dificuldade para tirá-la de cima do morto. Foi preciso levá-la para o hospital e medicá-la para que voltasse a si. A multidão passa a ser outro sujeito.
Estamos todos sujeitos a participar de um linchamento?
Se você tem valores bem fundamentados, não vai participar de um linchamento. Ele envolve pessoas cuja referência social é frágil. O problema é que elas são maioria no Brasil. Estima-se que 500 mil brasileiros tenham participado de linchamentos nos últimos 50 anos. Não é um número pequeno.
Como agem os linchadores?
Inicialmente, corre-se atrás do linchado. A vítima sempre corre, mesmo armada. É tudo muito covarde, porque as pessoas não atacam com as mãos. Primeiro, estonteiam a vítima com pauladas e pedradas. Arrastar a pessoa é comum, sempre pelos pés, que é mais uma forma de degradar. O passo seguinte é a mutilação. Em caso de crime sexual, há a castração e, às vezes, ela é seguida por atos ainda mais humilhantes, como o de colocar o pênis do rapaz em sua própria boca. Por fim, queima-se o sujeito, vivo ou morto.
Esse tipo de imagem nos leva àquela velha questão: intrinsecamente, o homem é mau?
Não diria isso. Mas a camada de civilização é muito fina. Tudo o que a gente chama de civilização, esse conjunto de valores, é muito frágil. Basta um acontecimento que rompa essa seda para que o ser humano primitivo que está ali, embutido não de maldade, mas de instintos, venha para fora. Porém, mesmo na reação instintiva, há regras.
Há picos de linchamento no Brasil?
Sim. Pegando os últimos 50 anos, logo após o fim da ditadura militar, o sentimento da população era de que a ordem havia acabado e que tudo era incerto. E esse clima não acabou. Outro pico foi no fim da ditadura de Getúlio Vargas. E há um detalhe interessante. Quarta e quinta-feira são os dias de pico. Em geral, há poucos linchamentos aos domingos e segundas-feiras.
Por quê?
Provavelmente, porque nossos linchamentos são urbanos e, no meio da semana, as pessoas estão no pico do estresse, mais frágeis para resistir à tentação.
Punir quem lincha é uma forma de reprimir os linchamentos?
Quem mata tem que ser punido. Não punir significa estimular. Mas é difícil punir. Há um caso curioso no oeste de Santa Catarina, mais ou menos 20 anos atrás. Um rapaz foi linchado e levou uns 20 dias para morrer. Antes disso, conseguiu identificar 23 linchadores. Eles foram a julgamento. Os jurados absolveram 22 acusados. Só condenaram um: o mais pobre. Ele foi condenado a 7 anos de prisão. É complicado levar a julgamento, porque o júri tende a ter simpatia pelos linchadores.
Há mais casos de pessoas que foram presas por linchamento?
Sim, mas só um caso de condenação efetiva que eu conheça.
O fato de o linchamento não ser tipificado altera os números de violência no Brasil?
O número de assassinatos e tentativas de assassinato que não ocorrem por meio de linchamento é muito maior do que os que são provocados por linchamento. Então, isso não afeta significativamente os números de violência. Afeta, sim, a quantificação de linchamentos no Brasil. Há períodos em que acontecem mais e há períodos, de algumas semanas, em que nada acontece.
Quando?
No mês da Copa de 98, por exemplo, o Brasil não registrou nenhum linchamento. Poucas horas depois do último jogo da seleção brasileira, aconteceu um linchamento, que não tinha nada a ver com a partida. Isso confirma que há momentos, como a Copa do Mundo e a morte de grandes ídolos, como foi a do Ayrton Senna, em que a sociedade brasileira comunga. A desordem deixa de existir, porque há um sentimento que prevalece sobre o conjunto da diversidade e das adversidades. O Brasil só é Brasil nesses momentos.
Que papel a polícia desempenha nos linchamentos?
A polícia militar tem sido exemplar na proteção da vítima de linchamento. Inclusive, expondo-se a perigos. Às vezes, diante de evidências de que vai ocorrer um linchamento, a polícia se omite para permitir que ele ocorra. Mas, em geral, isso vem da polícia civil. Quando o delegado coloca um preso em determinada cela, pré-julga o criminoso e não o isola, ele está participando do linchamento que aquele preso pode sofrer na cadeia.
De onde vem o termo linchamento?
De um tal juiz Lynch, que atuava no oeste dos EUA, no século 18. Ele não era um juiz de verdade. As cidades que estavam nascendo ali não tinham lei. Quem violava as regras que estavam na consciência das pessoas era punido com o linchamento, que lá consistia em recobrir o corpo do fulano de betume e colocar penas de galinha nele, obrigando-o a desfilar pelo povoado, para todos saberem que ele deveria ser evitado. Era um linchamento moral e físico. No Brasil, já linchávamos no século 16. É o registro mais antigo que tenho.
Nos EUA, o linchamento esteve muito associado ao racismo. É surpreendente que, em tão pouco tempo, o país possa eleger um negro?
Os linchamentos dos EUA eram feitos principalmente entre pobres - pobres brancos linchando pobres negros. O governo Roosevelt criou alternativas para brancos e negros, com o desenvolvimento econômico. Além disso, as mulheres, que eram usadas como desculpa para linchar, fizeram um movimento lindíssimo e desarmaram a predisposição dos maridos. O último linchamento de que tenho notícia lá foi uns 10 anos atrás, de negros linchando um negro. As mudanças econômicas e as guerras, que abriram a possibilidade de um negro ser general, foram importantes. Os americanos já têm a Condoleezza Rice no governo, uma mulher muito culta. E isso abre caminho para o Barack Obama. Ainda há muito racismo, mas nada que mobilize multidões.

Ninguém é a favor de bandidos, é você que não entendeu nada!!!

Ninguém é a favor de bandidos, você é que não entendeu nada!!! 

 

Sobre as expressões que atravessam as gerações, passando de pai para filho e o pensamento ignorante que elas geram

 

Vídeo tocante que nos faz refletir e relembrar a história, que conhecemos bem, vivida recentemente pelo ator Vinícius, prezo injustamente por ser confundido com um ladrão pela vítima.



domingo, 4 de maio de 2014

Mídia e produção do medo



Retirado de: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10151099270868872&set=a.10150901709568872.442777.51829283871&type=1&theater

Vídeos Complementares ao Trabalho sobre Polícia

Vídeos complementares ao trabalho sobre Polícia apresentado no dia 28/04:





Holocausto Brasileiro

20 de Novembro de 2011 - 07:00

Milhares sucumbiram de frio, fome, tortura e doenças curáveis; 50 anos depois, ninguém foi punido por este genocídio

Por DANIELA ARBEX
Não se morre de loucura. Pelo menos em Barbacena. Na cidade do Holocausto brasileiro, mais de 60 mil pessoas perderam a vida no Hospital Colônia, sendo 1.853 corpos vendidos para 17 faculdades de medicina até o início dos anos 1980, um comércio que incluía ainda a negociação de peças anatômicas, como fígado e coração, além de esqueletos. As milhares de vítimas travestidas de pacientes psiquiátricos, já que mais de 70% dos internados não sofria de doença mental, sucumbiram de fome, frio, diarréia, pneumonia, maus-tratos, abandono, tortura. Para revelar uma das tragédias brasileiras mais silenciosas, a Tribuna refez os passos de uma história de extermínio. Tendo como ponto de partida as imagens do então fotógrafo da revista "O Cruzeiro", Luiz Alfredo, publicadas em 1961 e resgatadas no livro "Colônia", o jornal empreendeu uma busca pela localização de testemunhas e sobreviventes dos porões da loucura 50 anos depois. A investigação, realizada durante 30 dias, identificou a rotina de um campo de concentração, embora nenhum governo tenha sido responsabilizado até hoje por esse genocídio. A reportagem descortinou, ainda, os bastidores da reforma psiquiátrica brasileira, cuja lei sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais, editada em 2001, completa dez anos. As mudanças iniciadas em Minas alcançaram, mais tarde, outros estados, embora muitas transformações ainda estejam por fazer, conforme já apontava inspeção nacional realizada, em 2004, nos hospitais psiquiátricos do país. A série de matérias pretende mostrar a dívida histórica que a sociedade tem com os "loucos" de Barbacena, cujas ossadas encontram-se expostas em cemitério desativado da cidade.
Criado pelo governo estadual, em 1903, para oferecer "assistência aos alienados de Minas", até entã atendidos nos porões da Santa Casa, o Hospital Colônia tinha, inicialmente, capacidade para 200 leitos, mas atingiu a marca de cinco mil pacientes em 1961, tornando-se endereço de um massacre. A instituição, transformada em um dos maiores hospícios do país, começou a inchar na década de 30, mas foi durante a ditadura militar que os conceitos médicos simplesmente desapareceram. Para lá eram enviados desafetos, homossexuais, militantes políticos, mães solteiras, alcoolistas, mendigos, pessoas sem documentos e todos os tipos de indesejados, inclusive, doentes mentais.
'Trem de doido'
Sem qualquer critério para internação, os deserdados sociais chegavam a Barbacena de trem, vindos de vários cantos do país. Eles abarrotavam os vagões de carga de maneira idêntica aos judeus levados, durante a Segunda Guerra, para os campo de concentração nazista de Auschwitz, na Polônia. Os considerados loucos desembarcavam nos fundos do hospital, onde o guarda-freios desconectava o último vagão, que ficou conhecido como "trem de doido". A expressão, incorporada ao vocabulário dos mineiros, hoje define algo positivo, mas, na época, marcava o início de uma viagem sem volta ao inferno. Wellerson Durães de Alkmim, 59 anos, membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise, jamais esqueceu o primeiro dia em que pisou no hospital em 1975. "Eu era estudante do Hospital de Neuropsiquiatria Infantil, em Belo Horizonte, quando fui fazer uma visita à Colônia 'Zoológica' de Barbacena. Tinha 23 anos e foi um grande choque encontrar, no meio daquelas pessoas, uma menina de 12 anos atendida no Hospital de Neuropsiquiatria Infantil. Ela estava lá numa cela, e o que me separava dela não eram somente grades. O frio daquele maio cortava sua pele sem agasalho. A metáfora que tenho sobre aquele dia é daqueles ônibus escolares que foram fazer uma visita ao zoológico, só que não era tão divertido, e nem a gente era tão criança assim. Fiquei muito impactado e, na volta, chorei diante do que vi."
Pavilhão onde internos dormiam no "leito único", nome oficial para substituição de camas por capim
Pavilhão onde internos dormiam no "leito único", nome oficial para substituição de camas por capim

Esgoto era fonte de água de internos

Entrar na Colônia era a decretação de uma sentença de morte. Sem remédios, comida, roupas e infraestrutura, os pacientes definhavam. Ficavam nus e descalços na maior parte do tempo. No local onde haviam guardas no lugar de enfermeiros, o sentido de dignidade era desconhecido. Os internos defecavam em público e se alimentavam das próprias fezes. Faziam do esgoto que cortava os pavilhões a principal fonte de água. "Muitas das doenças eram causadas por vermes das fezes que eles comiam. A coisa era muito pior do que parece. Cheguei a ver alimentos sendo jogados em cochos, e os doidos avançando para comer, como animais. Visitei o campo de Auschwitz e não vi diferença. O que acontece lá é a desumanidade, a crueldade planejada. No hospício, tira-se o caráter humano de uma pessoa, e ela deixa de ser gente. Havia um total desinteresse pela sorte. Basta dizer que os eletrochoques eram dados indiscriminadamente. Às vezes, a energia elétrica da cidade não era suficiente para aguentar a carga. Muitos morriam, outros sofriam fraturas graves", revela o psiquiatra e escritor Ronaldo Simões Coelho, 80 anos, que trabalhou na Colônia no início da década de 60 como secretário geral da recém-criada Fundação Estadual de Assistência Psiquiátrica, substituída, em 77, pela Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig). A Fhemig continua responsável pela instituição, reformulada a partir de 1980 e, recentemente, transformada em hospital regional. Hoje, o Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHPB) atende um universo de 50 cidades e uma população estimada em 700 mil pessoas.
Capim como cama
Os pacientes da Colônia, em sua maioria, dormiam no "leito único", denominação para o capim seco espalhado sobre o chão de cimento, que substituía as camas. O modelo chegou a ser oficialmente sugerido para outros hospitais "para suprir a falta de espaço nos quartos."
Em meio a ratos, insetos e dejetos, até 300 pessoas por pavilhão deitavam sobre a forragem vegetal. "O frio de Barbacena era um agravante, os internos dormiam em cima uns dos outros, e os debaixo morriam. De manhã, tiravam-se os cadáveres", contou o psiquiatra Jairo Toledo, diretor do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHPB).
Marlene Laureano, 56 anos, funcionária do CHPB desde os 20, era uma espécie de faz-tudo. "Todas as manhãs, eu tirava o capim e colocava para secar. Também dava banho nos pacientes, mas não havia roupas para vestirem. Tinha um pavilhão com 300 pessoas para alimentar, mas só tinha o suficiente para 30. Imagine! Só permaneci aqui, porque tinha a certeza de que um dia tudo isso ia melhorar, sei que Deus existe."
José Machado em 1961; Machadinho, hoje, aos 80 anos. Resistência em meio século de internação
José Machado em 1961; Machadinho, hoje, aos 80 anos. Resistência em meio século de internação

Sobreviventes passaram a vida internados

"Esse faleceu. Era uma delícia de pessoa. Essa morreu. Ela benzia a gente. Lembra? Olha o Raul, que saudade. Essa era bem alegre. Esse homem era engraçado, gostava de tomar conta das portas." Os comentários deMarlene Laureano sobre os pacientes fotografados por Luiz Alfredo, em 1961, não deixam dúvida de que a história da Colônia tem na morte uma de suas principais heranças. Sobreviver à Colônia é quase como confrontar o improvável. José Machado, 80 anos, Sônia Maria da Costa, 61, Maria Aparecida de Jesus, 71, e Antônio Sabino, 70, são alguns dos que conseguiram. Institucionalizados há mais de meio século, resistiram a fome, ao frio e ao tratamento desumano, mas carregam graves sequelas.
O registro de José Machado, o Machadinho, é de número 1.530. A informação sobre ele que mais se aproxima da verdade, já que a maior parte dos pacientes não tem qualquer registro sobre o seu passado, é de que deu entrada na entidade em 1959, conduzido pela polícia, após ser acusado de colocar veneno na bebida de alguém. Inocente, passou a vida encarcerado. Hoje, aos 80 anos, precisa de uma cadeira de rodas para se locomover, mantendo-se reticente na presença de estranhos.
Sebastiana Marques está em um dos cinco módulos residenciais implantados no hospital para atender os pacientes com mais autonomia. Com diagnóstico de esquizofrenia, mantém o hábito de ficar isolada e não consegue se expressar. Já Sônia é uma exceção entre os sobreviventes. Apesar de ter chegado ao hospital ainda criança, vive hoje em uma das 28 residências terapêuticas de Barbacena. Mudou-se para lá em 2003, deixando para trás uma história de eletrochoques, agressões e medo. "Lá no hospital judiavam muito da gente. Já apanhei muito, mas bati em muita gente também. Como era agressiva, me deram muito choque. Agora tenho comida gostosa, talheres e o principal: liberdade."
Museu é tributo às vítimas
Atualmente 190 pacientes asilares estão sob a guarda do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHPB), mas sua sobrevida é estimada em, no máximo, mais uma década. "Acredito que, em dez anos, o ciclo dos porões da loucura se fecha", afirma o diretor Jairo Toledo, referindo-se às últimas testemunhas daqueles tempos de horror. Maria Cibele de Aquino, 68 anos, foi uma das baixas mais recentes. Clicada em 1961, aos 18 anos, por Luiz Alfredo, ela faleceu em 14 de setembro, na companhia das bonecas que ninou durante toda uma vida de internação. Chegou ao hospício aos 14 anos de idade e nunca saiu de lá.
Para que a memória não seja enterrada, o Museu da Loucura vai continuar lembrando o que, convenientemente, poderia ser esquecido. Idealizado por Jairo, o museu foi inaugurado, em 1996, no torreão do antigo Hospital Colônia, e pretende ser um tributo às dezenas de milhares de vítimas da lendária instituição. Dos cinco museus de Barbacena, o que se dedica a contar a história da loucura é o mais visitado por turistas.
Em 2008, a publicação do livro "Colônia", também organizado por Jairo, expôs as feridas de uma tragédia silenciosa abafada pelos muros do hospital. "Por mais duro que seja, há que se lembrar sempre, para nunca se esquecer - como se faz com o holocausto - as condições subumanas vividas naquele campo de concentração travestido de hospital. Trazer à tona a triste memória dessa travessia marcada pela iniquidade e pelo desrespeito aos direitos humanos é uma forma de consolidar a consciência social em torno de uma nova postura de atendimento, gerando uma nova página na história da saúde pública", afirmou o ex-secretário de estado da saúde de Minas, o deputado federal Marcus Pestana. (PSDB/MG). Foi ele quem viabilizou a tiragem de mil exemplares do livro "Colônia."
Fonte: http://www.tribunademinas.com.br/cidade/holocausto-brasileiro-50-anos-sem-punic-o-1.989343
Recentemente a jornalista Daniela Arbex publicou o livro-reportagem Holocausto Brasileiro:
Sinopse

Neste livro-reportagem fundamental, a premiada jornalista Daniela Arbex resgata do esquecimento um dos capítulos mais macabros da nossa história: a barbárie e a desumanidade praticadas, durante a maior parte do século XX, no maior hospício do Brasil, conhecido por Colônia, situado na cidade mineira de Barbacena. Ao fazê-lo, a autora traz à luz um genocídio cometido, sistematicamente, pelo Estado brasileiro, com a conivência de médicos, funcionários e também da população, pois nenhuma violação dos direitos humanos mais básicos se sustenta por tanto tempo sem a omissão da sociedade.
Pelo menos 60 mil pessoas morreram entre os muros da Colônia. Em sua maioria, haviam sido internadas à força. Cerca de 70% não tinham diagnóstico de doença mental. Eram epiléticos, alcoólatras, homossexuais, prostitutas, gente que se rebelava ou que se tornara incômoda para alguém com mais poder. Eram meninas grávidas violentadas por seus patrões, esposas confinadas para que o marido pudesse morar com a amante, filhas de fazendeiros que perderam a virgindade antes do casamento, homens e mulheres que haviam extraviado seus documentos. Alguns eram apenas tímidos. Pelo menos 33 eram crianças.